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14 de junho de 2012

VIVIANE MOSÉ - Receita pra lavar palavra suja

Hoje, na III Mostra Sesc de Literatura Contemporânea, pude ouvir de perto a poetisa Viviane Mosé recitar seus poemas fantásticos e inteligentes. De todos que ela recitou, eu guardei para mostrar para vocês o Receita para lavar palavra suja.

Viviane Mosé
Receita para lavar palavra suja

Mergulhar a palavra em água sanitária.
Depois de dois dias de molho, quarar ao
sol do meio dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol
adquirem consistência de certeza. Por exemplo,
a palavra vida.
Existem outras, e a palavra amor é uma delas,
que são muito encardidas pelo uso, o que recomenda
esfregar e bater insistentemente na pedra,
depois de enxaguar em água corrente.
São poucas que resistem a esses cuidados, mas
existem aquelas.
Dizem que limão e sal tiram sujeira dificil, mas nada.
Toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão.
Mas nunca vi palavra tão suja como perda.
Perda e morte na medida em que são alvejadas
soltam um liquido corrosivo, que atende pelo nome
amargura, que é capaz de esvaziar o vigor da língua.
O aconselhado nesse caso é mantê-las sempre de molho
em um amaciante de boa qualidade.
Agora, se você quer somente aliviar as palavras
do uso diário, pode usar simplesmente sabão em
pó e máquina de lavar.
O perigoneste caso é misturar palavras que mancham
no contato umas com as outras. Culpa, por exemplo,
a culpa mancha tudo que encontra e deve ser sempre
alvejada sozinha.
Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo,
já que desejo, sendo uma palavra intensa, quase agressiva,
pode, o que não é inevitável, esgarçar a força delicada da
palavra amizade.
Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.
Outro cuidado importante é não lavar demais as
palavras sob o risco de perderem o sentido.
A sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva,
produz uma oleosidade que dá vigor aos sons.
Muito importante na arte de lavar palavras
é saber reconhecer uma palavra limpa.
Conviva com a palavra durante alguns dias.
Deixe que se misture em seus gestos, que passeie
pela expressão dos seus sentidos.
À noite, permita que se deite, não ao seu lado,
mas sobre seu corpo.
Enquanto você dorme, a palavra, plantada em
sua carne, prolifera em toda sua possibilidade.
Se puder suportar essa convivência até não mais
perceber a presença dela, então você tem uma
palavra limpa.
Uma palavra limpa é uma palavra possível.

Acompanhe Viviane Mosé falando o poema acima:

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