> Lugar do Leitor

2 de junho de 2012

LENDO NA TELA - Nélida Piñon


Novamente mais uma edição do Lendo na Tela. Nesta edição, leremos um conto de Nélida Piñon: Colheita. Saiba um pouco mais sobre essa grande escritora:

Nélida Piñon, jornalista, romancista, contista, professora, é carioca de Vila Isabel, Rio de Janeiro, RJ. Nasceu em 3 de maio de 1937. Eleita em 27 de julho de 1989 para a Cadeira n. 30, na sucessão de Aurélio Buarque de Holanda, foi recebida em 3 de maio de 1990, pelo acadêmico Lêdo Ivo. 

Foi a primeira mulher, nos mais de 100 anos de existência da ABL, a integrar a Diretoria e ocupar a presidência da Casa de Machado de Assis, no ano do seu I Centenário. 

Sua produção literária está traduzida para países como Alemanha, Itália, Espanha, União Soviética, Estados Unidos, Cuba e Nicarágua. Contos seus encontram-se publicados em centenas de revistas e fazem parte de antologias brasileiras e estrangeiras.


1 de junho de 2012

RUBEM BRAGA - Aula de inglês



Aula de inglês

— Is this an elephant?

Minha tendência imediata foi responder que não; mas a gente não deve se deixar levar pelo primeiro impulso. Um rápido olhar que lancei à professora bastou para ver que ela falava com seriedade, e tinha o ar de quem propõe um grave problema. Em vista disso, examinei com a maior atenção o objeto que ela me apresentava.

Não tinha nenhuma tromba visível, de onde uma pessoa leviana poderia concluir às pressas que não se tratava de um elefante. Mas se tirarmos a tromba a um elefante, nem por isso deixa ele de ser um elefante; mesmo que morra em conseqüência da brutal operação, continua a ser um elefante; continua, pois um elefante morto é, em princípio, tão elefante como qualquer outro. Refletindo nisso, lembrei-me de averiguar se aquilo tinha quatro patas, quatro grossas patas, como costumam ter os elefantes. Não tinha. Tampouco consegui descobrir o pequeno rabo que caracteriza o grande animal e que, às vezes, como já notei em um circo, ele costuma abanar com uma graça infantil.

Terminadas as minhas observações, voltei-me para a professora e disse convincentemente:

— No, it's not!

Ela soltou um pequeno suspiro, satisfeita: a demora de minha resposta a havia deixado apreensiva. Imediatamente perguntou:

— Is it a book?

Sorri da pergunta: tenho vivido uma parte de minha vida no meio de livros, conheço livros, lido com livros, sou capaz de distinguir um livro a primeira vista no meio de quaisquer outros objetos, sejam eles garrafas, tijolos ou cerejas maduras — sejam quais forem. Aquilo não era um livro, e mesmo supondo que houvesse livros encadernados em louça, aquilo não seria um deles: não parecia de modo algum um livro. Minha resposta demorou no máximo dois segundos:

— No, it's not!

Tive o prazer de vê-la novamente satisfeita — mas só por alguns segundos. Aquela mulher era um desses espíritos insaciáveis que estão sempre a se propor questões, e se debruçam com uma curiosidade aflita sobre a natureza das coisas.

— Is it a handkerchief?

Fiquei muito perturbado com essa pergunta. Para dizer a verdade, não sabia o que poderia ser um handkerchief; talvez fosse hipoteca... Não, hipoteca não. Por que haveria de ser hipoteca? Handkerchief! Era uma palavra sem a menor sombra de dúvida antipática; talvez fosse chefe de serviço ou relógio de pulso ou ainda, e muito provavelmente, enxaqueca. Fosse como fosse, respondi impávido:

— No, it's not!

Minhas palavras soaram alto, com certa violência, pois me repugnava admitir que aquilo ou qualquer outra coisa nos meus arredores pudesse ser um handkerchief.

Ela então voltou a fazer uma pergunta. Desta vez, porém, a pergunta foi precedida de um certo olhar em que havia uma luz de malícia, uma espécie de insinuação, um longínquo toque de desafio. Sua voz era mais lenta que das outras vezes; não sou completamente ignorante em psicologia feminina, e antes dela abrir a boca eu já tinha a certeza de que se tratava de uma palavra decisiva.

— Is it an ash-tray?

Uma grande alegria me inundou a alma. Em primeiro lugar porque eu sei o que é um ash-tray: um ash-tray é um cinzeiro. Em segundo lugar porque, fitando o objeto que ela me apresentava, notei uma extraordinária semelhança entre ele e um ash-tray. Era um objeto de louça de forma oval, com cerca de 13 centímetros de comprimento.

As bordas eram da altura aproximada de um centímetro, e nelas havia reentrâncias curvas — duas ou três — na parte superior. Na depressão central, uma espécie de bacia delimitada por essas bordas, havia um pequeno pedaço de cigarro fumado (uma bagana) e, aqui e ali, cinzas esparsas, além de um palito de fósforos já riscado. Respondi:

— Yes!

O que sucedeu então foi indescritível. A boa senhora teve o rosto completamente iluminado por onda de alegria; os olhos brilhavam — vitória! vitória! — e um largo sorriso desabrochou rapidamente nos lábios havia pouco franzidos pela meditação triste e inquieta. Ergueu-se um pouco da cadeira e não se pôde impedir de estender o braço e me bater no ombro, ao mesmo tempo que exclamava, muito excitada:

— Very well! Very well!

Sou um homem de natural tímido, e ainda mais no lidar com mulheres. A efusão com que ela festejava minha vitória me perturbou; tive um susto, senti vergonha e muito orgulho.

Retirei-me imensamente satisfeito daquela primeira aula; andei na rua com passo firme e ao ver, na vitrine de uma loja,alguns belos cachimbos ingleses, tive mesmo a tentação de comprar um. Certamente teria entabulado uma longa conversação com o embaixador britânico, se o encontrasse naquele momento. Eu tiraria o cachimbo da boca e lhe diria:

-- It's not an ash-tray!

E ele na certa ficaria muito satisfeito por ver que eu sabia falar inglês, pois deve ser sempre agradável a um embaixador ver que sua língua natal começa a ser versada pelas pessoas de boa-fé do país junto a cujo governo é acreditado.


Fonte: Releituras
Observação: a crônica acima foi extraída do livro "Um pé de milho", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1964, pág. 33.

Rubem Braga

LEITURAS DE - Junho

No mês de junho, o blog contará com a (re)leitura de alguns textos já publicados e outros novos. A proposta é incentivar a leitura das narrativas breves e de alguns gêneros pouco lidos. Espero vocês nos comentários e um ótimo começo de mês a todos os leitores. 


ANTON TCHEKHOV - A linguaruda

Anton Tchekhov é um dos grandes nomes da literatura russa.
Anton Tchekhov
A Linguaruda, um conto de  Anton Tchekhov.

Natália Mikailovna, senhora garbosa e ainda jovem, chegou pelo trem de Jalta, onde passara o verão. Depois, durante o jantar falou sem parar, descrevendo as belezas daquela região. O marido, feliz com o retorno da esposa, a observava com os olhos cheios de ternura, ante a excitação dela, limitando-se apenas a fazer algumas perguntas esporádicas. 

- Ouvi dizer que a vida lá está muito cara… – observou ele.

- Cara? Como vou dizer? Não é tão cara quanto dizem. Eu tinha com a Júlia Petrovna, um bom apartamento, bem confortável, por vinte rublos por dia. Precisa saber se controlar. Se vai se fazer um passeio aos montes, por exemplo ao Al-Ptri, se gasta mais… O cavalo, o guia… Tudo isso encarece, e muito… Mas, querido, que belos montes! Tu não imaginas como são altos! Mil vezes mais altos que a igreja… E em cima, neve! Nada mais do que neve… Embaixo, pedras, apenas… Ah, que beleza…

- A respeito disso, durante a sua ausência, fiquei preocupado quando li a respeito das crueldades praticadas pelos guias… Não é verdade que são perversos?

Natália fez uma careta e balançou a cabeça, negativamente. 

- São como todos os tártaros – respondeu ela. – Além disso, só os vi de longe, uma ou duas vezes… Falaram a esse respeito, mas não dei muita importância… Sempre senti aversão aos circassianos, aos gregos, aos mouros…

- Me parece que são uns espertalhões…

- Pode ser… Mas tem algumas sem vergonhas que…

Seu semblante se transtornou e ela chegou a se levantar, como se visse o diabo. Encarou o marido com os olhos dilatados:

- Vasitchka! Tu não imaginas quantas mulheres levianas há no mundo! Que imoralidade! E não de classe baixa ou mesmo média, não! Aristocratas da alta!… Eu não acreditava no que via! Nunca mais vou esquecer! Só quem não tem princípios pode chegar a esse ponto… E nem me atrevo a contar! Veja só a Júlia Petrovna, minha companheira de viagem… Tem um marido tão bom, dois filhos, considerada da melhor sociedade… Quer passar por uma santa, mas sabes o que fazia? Tu não vais acreditar! Mas que fique entre nós… Me dás a palavra de honra que não dirás a ninguém!?

- Ora, que ideia! Vou contar para quem?

- Bom, vou confiar em ti!

Recostou-se na cadeira, aguçou o olhar e começou:

- Imagine! Um dia, Júlia Petrovna saiu a cavalo para um passeio pelos montes. Era um dia lindo e ela saiu na frente com o seu guia. Eu ia atrás. Cerca de dois ou três quilômetros do vilarejo, ela soltou um grito, levando as mãos ao peito. Se o tártaro não a agarrasse ela teria caído e poderia ter se machucado com gravidade… Corri para junto dela com o meu guia, para ver o que tinha acontecido e ela me respondeu que se sentia mal, que parecia que ia morrer. Imagine só! Assustada eu tentei convencê-la a voltar. Ela choramingava que não podia, que estava para morrer. Me disse até que se desse um passo a mais iria morrer! Choramingava dizendo que sentia vertigens. Então pediu a mim e a Suleiman que fôssemos apanhar um remédio que ela tinha no nosso apartamento…

- Espera aí, querida – interrompeu o marido. – Há pouco me dizias que não tinha visto os tártaros senão ao longe e me vens com esse Saleiman que a acompanhava?

- Não me venha com asneiras! – rompeu a esposa em reclamar. – Abomino essas suspeitas! Não suporto isso! É um absurdo!

- Não estou suspeitando de nada, mas porque mentir? Tu passeavas com os guias tártaros… porque esconder?

- Quando queres, és impossível! – protestou ela indignada. – Estás com ciúmes de Sulieman! É isso! Mas queria ver como irias ao monte sem guia! Ah! Queria ver mesmo! Se não conheces aquela região e seus costumes e dificuldades, faria melhor se calasse! Escute e aprenda! Lá não se pode dar um passo sem guia.

- É natural!

- Me faze o favor de deixar esses sorrisinhos bobos! Não sou uma Júlia qualquer para aguentá-los. Não quero passar por santa, mas não me permitiria certas coisas… Será que não vês que Mametkul passava o tempo todo com a Júlia? Comigo não! Quando dava onze horas eu já dizia: “Suleiman, estás liberado!” e o meu tartarosinho ia-se embora… Eu o tratava com muita serenidade e assim mesmo, às vezes vinha falar de dinheiro e gastos extras, mas logo eu me eximia do que não estava combinado. Han! Han! Sabes, Vasitchka? Ele tinha uns olhos negros como o carvão, uma carinha morena, uma graciosa cara de tártaro… Han! Han! Mas eu o tratava com muita firmeza!

- Imagino que sim… – murmurou o esposo, entretido com as bolinhas de pão.

- Estás maluco, Vasitchka? Completamente louco? Já sei o que estás pensando! Conheço a tua cabeça! Mas te asseguro que quando estávamos passeando não se conversava nunca! Íamos, por exemplo, nos montes ou na cascata de Ucha-Su e eu ordenava ao Suleiman que ficasse atrás. Entende? E o pobrezinho tinha que ir atrás mesmo! Não o deixava esquecer-se que ele era um tártaro e eu a esposa de um conselheiro de Estado! Han! Han!

Ela deu uma gargalhada meio forçada e fez uma cara de assustada logo em seguida:

- Mas a Júlia! Hum! Esta Júlia! A gente pode fazer uma travessura, distrair-se! Porque não? Precisamos aliviar um pouco a tensão e a frivolidade da vida mundana, penso eu! Temos que nos divertir, mas nos conter dos excessos, para poder exigir que nos respeitem. Fazer escândalos? Ah! Isso não! Mas imagina que ela estava com ciúmes de mim! Que tolice! Uma vez Mametkul chegou e ela não estava. Então o fiz entrar e conversamos um tempo. São muito interessantes esses tártaros… A tarde passou sem percebermos. De repente chega Júlia, como uma tempestade! Brigou comigo e com Mametkul, armando uma cena horrível! Isto, Vasitchka, eu não aceito…

Com um “hum” muito eloquente, ela franze as sobrancelhas e girou pela sala com passos firmes.

- Então, pelo que vejo, te distraíste bem! – disse o marido sorrindo.

- Que estúpido! Já sei tudo o que estás pensando! Tens sempre idéias maliciosas! Mas daqui para frente, já sei que não te contarei nada! Nada mesmo!

E calou-se, com uma cara de arrependida.

31 de maio de 2012

JOSÉ CASTELLO - Lygia invade minha noite


Acordo, ainda está escuro. Penso: "São cinco horas da manhã". Mas como posso saber que são cinco da manhã? Acendo a luz, olho o relógio. São cinco da manhã. 

Incomodado, me levanto. Há uma parte da mente que sabe sem saber que sabe. Carregamos informações que desconhecemos, mas que nem por isso deixam de existir. É preciso aceitar isso, nem sempre é fácil.

Vou até a sala. Sobre uma poltrona, encontro o exemplar de Antes do baile verde, a nova edição da Companhia das Letras, que recebi de presente de Lygia Fagundes Telles. Junto com o livro, Lygia me mandou um poema de seu filho, Goffredo Telles Neto. Voltam-me os dois últimos versos: "Não contes a tua idade pelos anos/ mas sim pelos amigos". Existem muitas maneiras de contar. Existem muitas maneiras de saber.

Abro o livro ao acaso e esbarro em "A caçada", um dos mais belos contos de Lygia. Decido relê-lo. Antes, preciso confirmar se são, de fato, cinco da manhã. Agora cinco e cinco. Como pude saber? É melhor me esconder na leitura.

Um homem entra em uma loja de antiguidades. Dias antes, se interessara por uma tapeçaria. Volta para observá-la melhor. É a imagem clássica de uma caçada. Um caçador aponta seu arco para uma touceira muito espessa. Tem os músculos tensos, está prestes a disparar sua seta. À distância, um segundo caçador espreita entre as árvores.

"Parece que hoje tudo está mais próximo", o homem comenta. A dona do antiquário se espanta: "Não vejo diferença nenhuma". É o mesmo tapete, a mesma paisagem. Nada mudou. Mas o homem tem certeza de que, agora, consegue ver a seta que voa. Antes não conseguia. A mulher garante que não é uma seta, mas só um buraco de traça.

Entre as manchas do velho tapete, o homem pressente a presença do animalzinho que foge, reduzido a um ponto carcomido. A velha também não o vê e se espanta.

De repente, o homem tem certeza de que conhece aquele bosque, aquele céu, aquele caçador. Já viveu aquela cena. Teria sido o caçador? Ou seu companheiro, que espia entre as árvores?

Tapeçarias antigas costumam ser reproduções de telas. Talvez ele tenha sido o pintor do quadro original. Algum laço remoto o liga ao tapete. Tem certeza de que já esteve ali. O tapete o engole e ele se deixa mastigar.

Sai da loja, atordoado com a "familiaridade medonha". Sente náuseas, vaga pelas ruas. Chega em casa, mas a dúvida não o abandona.

Na manhã seguinte, retorna à loja. Ao se aproximar do tapete, sente um forte cheiro de folhagem e de terra. A vista começa a embaçar, a sala desaparece, só a tapeçaria é real. O homem cambaleia, tenta se apoiar em uma coluna, mas seus dedos se enroscam em galhos de árvores.

De repente, ouve o assobio de uma seta. Cai. Ainda tenta se agarrar à tapeçaria, mas não consegue. Foi alvejado. O homem é a caça. Não, não foi atingido por uma seta, mas por um tapete. A arte foi mais forte, o homem sucumbiu. Sem saber que sabia, já estava ali dentro.

Fecho o livro. Um leve desconforto me incomoda. Penso em continuar a leitura no quarto, mas não consigo pegar o livro. Algo me impede. Não sei o que me impede.

Não preciso fazer isso: carrego o livro dentro de mim. Eu sou aquele homem que observa um tapete.

Fonte: Literatura na Poltrona